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A espreita de uma grande dor...

Soaria como um tapa no escuro, ou mesmo, diria ela depois entre-dentes, quase líquida sentada nos ladrilhos amarelos da cozinha de Lua, como uma carícia no vento, mão tocando o vazio...como essas coisas que não mudam o curso por serem marcadamente liquefeitas. Talvez o amigo que não a abraçara na partida estivesse certo, nós sempre sabemos quando as coisas estão para morrer partir ou quebrar, e então a pontada aguda no peito, o medo de ter perdido o jeito. Abraçou os joelhos como fazia quando criança, mesmo ciente que não lembrava da infância, apenas fantasiava, enfeitando, inventando histórias para contar a uns poucos seres que como ela escorregavam perigosamente de si, e temerosa, desajeitada nessas coisas de amor-falta-dor,balançava-se entupida/entorpecida, como se perdendo/pendesse/doesse/morresse.

Fotografia: Lina Cheynius



Escrito por Anne Damásio às 10h59
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