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Da banalidade cotidiana...

Sim, era ela, a menina de azul. Teve vontade de gritar que ela não mudara nada, pensou pausadamente, como se escrevesse e nesse minuto pudesse colocar uma vírgula para organizar o pensamento...ela, a menina de azul, agora uma mulher de preto, acharia estranho, talvez nem lembrasse dele, e naquela hora do dia em que as cores perdiam a tonalidade abissal e adquiriam um gosto meio cinza de nada, momento ambíguo entre um dia cansado e a noite sem promessas, ela viraria os olhos para ele e ergueria as sobrancelhas como costumava fazer, arqueando levemente o canto direito da boca quando queria afirmar sem palavras que o dito do momento era uma bobagem inimaginável. Ele, sujo do dia, cansado da vida, com aquele gosto de cafés entornados frios-e-amargos para apressar o momento da ambiguidade(quando tudo que mais queria era fugir dele, quando não queria efetivamente voltar para casa, mas permanecer assim no vácuo de si) repetiria que ela era a menina de azul...essa palavras assim, ditas intempestivamente, sem motivo aparente soariam insanas no meio daquele barulho, homens gritando, “e aê vai levar freguês, último lançamento genérico, um real”, esbarrôes, espera angustiada por ônibus lotados que o conduziriam para sua casa. Fechou os olhos, sentiu as mãos encardidas dos canos metálicos dos ônibus, quis gritar também, como se pudesse sobrepor seus gritos com sua angústia de antigo pequeno burguês que largara a faculdade de letras no último período, mas engoliu em seco, como fazia com a vida. Quando olhou novamente, ponderado, ela estava ali, impassível, uma mulher de preto, sem aparentes esperas, como se flutuando por sobre aquela horda de humanos atabalhoados, cruzaram os olhos por um segundo, o que não queria dizer que se avistaram, ele esboçou um movimento qualquer que poderia sugerir reconhecimento, ela fingiu, ou realmente ignorou por não reconhecê-lo...um sujeito comum, nem gordo nem magro, com uma leve barriga de cervejas tomadas na urgência do ato de não sentir, óculos discretos comprados numa liquidação, roupas cinzas como se propositadamente não quisesse ser notado, não ousando imprimir no corpo marcas do antigo estilo, meio intelectual, sandálias de couro, jeans surrados e camisetas brancas...pensamentos suspensos, imagens de seu antigo eu a sua volta, como se a rir do que ele não se tornara. Então o ônibus dela, uma moça acena de dentro do ônibus, ela entra, quase aristocrática no meio daquela ralé e se vai, novamente ele deixa de dizer que para sempre ela seria a menina de azul, mesmo que ousasse usar preto, mesmo que não o reconhecesse...ela se vai!

Escrito por Anne Damásio às 12h33
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