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(re)vê-la

Os cabelos levemente presos, a mania de alardear felicidade, como se não soubéssemos da porosidade e efemeridade que a caracteriza, nós mortais, acomodados a um cotidiano comezinho...e eu a observá-la co-me-di-da-mente:. a superficialidade dos gestos, o desfile ostentatorio com a moça que a acompanhava ultimamente, a fuga para um mundinho colorido de faz-de-conta. Então sorri, ao lembrar que o destino sempre acabava por trazê-la de volta...o estranho por trás do meu sorriso, era uma leve certeza, dissipada, caso olhasse detidamente para o meu entorno, de que dessa vez...seríamos...
Desenho: Audrey Kawasaki
Escrito por Anne Damásio às 12h13
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Sinta o gosto do sal...

Only you were here
Audrey Kawasaki
"Segura firme"..."mas não encosta"...
"vê se não pára dessa forma".
...Porque assim doce, quase em dor me invades, deixando lampejos de marcas corpóreas indecifráveis...tuas costas me deixaram com essa sensação de vazio/não vazio pressentida, presumida...Olhei por algumas horas para os degraus, sempre eles a amparar minhas quedas...não houveram vítimas, apenas um medo inconfessável de saltar no escuro, porque a síndica deu para apagar as luzes num acesso de conter gastos, corredores no escuro, escadas que subo tateando...e aquele cheiro do não-concretizado grudado em todos os espaços por onde meto os olhos...
Escrito por Anne Damásio às 11h31
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PRECARIEDADES....

E todo aquele silêncio entrecortado com meus suspiros, todos aqueles toques desejados e não dados, tantos traumas a chafurdar nossas almas... um certo clima, algumas cenas despertando atenções irrestritas, pequenas esperanças vãs... tudo aquilo acontecendo naqueles dias estranhos, feito movimento(não saberia se premeditado ou não)vindo dela para despertar o vivo de dentro, o há tanto tempo quieto, à espera apenas daquele justo toque exato - não saberia se a melhor forma de sentir era apenas pressentir tudo aquilo, sem se deixar enlear por suposições...tinha medo.
Sentada nos degraus da casa entendeu o que Ana quisera expressar ao afirmar que a paixão é um animal que hiberna p-r-e-c-a-r-i-a-m-e-n-t-e...
Escrito por Anne Damásio às 12h20
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Da dissolução gradativa da permanência

"E tu dizias, te acalma dor...e eu te digo que o que permanece é esse vazio..."
Construídos em eternidade, hiperbolizamos os momentos iniciais da tão almejada vida (in)comum, (in)visibilizamos imperfeições – que constituintes do humano se escondem falsas, nos interstícios desse cotidiano comezinho...
Entre rompantes de amor romântico, juras de eternidade – tão colonizados que somos – montamos espaços, solidificamos hábitos, que rotineiros legitimam-se, para que o tempo inexorável metamorfoseando-os tornem-nos o que são, monstros da maldita miséria humana...a impaciência se mostra no ser do casal que não fala, os arroubos de lucidez e insatisfação, irrompem no outro dos dois que grita.
A pergunta reverbera em uníssono, experienciada distintamente, materializa-se tantas vezes o desejo de não-ser-dois...e o prelúdio/adiado do fim, anunciasse em barulhos provocados – cadeiras arrastadas, portas batidas, choros incontidos – invadindo as paredes erguidas, adensando as fissuras...quem saberá se (in)restauráveis?
Fotografia: Darren Holmes
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Escrito por Anne Damásio às 16h33
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Jogos de cena...

"do perigo de fantasiar"
Trinta e três anos e tantos dias...dizem que ela recuperava paulatinamente a racionalidade, porque segundo explicações psicanalíticas - que ela odiava, e exasperada ignorava-as com um gesto característico - não havia espaços para quimeras, para hiperbolizar pequenos deleites, que contemplados de fora da roda constituíam-se em delitos(in)imagináveis. Pensou sem susto que outras insanidades viriam...
Contemplou-se no espelho, esticando a pele debaixo dos olhos, e observou que a tez queimada de sol tinha tanta relação com aquelas bobagens que ela acreditara possíveis...mas o tempo adensava as olheiras, e apontava gradativa e sabiamente para a (im)permanência das relações humanas para além das satisfações e dos desejos momentâneos.
Incomodou-se sobremaneira com a sua incapacidade de perceber jogos tão óbvios, agora ciente das regras, escapava deles com tamanha rapidez, como se nunca tivesse estado ali, entre concessões e tantas possibilidades...e despediu-se de toda aquela sequência de momentos que definitiva e drasticamente decidira esquecer, restando apenas o gosto acre dos cigarros fumados... enfiara tranquilamente o dedo na garganta, ciente de que ao vomitar o texto, a gosma que se estruturara em parágrafos levariam junto a leveza daqueles instantes...
Fotografia: Francesca Woodman
Escrito por Anne Damásio às 12h41
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De quando morre...
Gentilmente, pensou num balde de água, que pudesse verter sobre todos aqueles pensamentos sujos...não era uma sujeira moral, não havia nenhum sentido, ou o que virá, nessa sequência de fragmentos que adquiriam significados desconexos...apenas a névoa, o vazio, as paredes a comprimi-la... Mas houve um momento em que alguém postou-se a sua frente e ela, com uma certa rispidez levantou-se, e prontamente começou a falar, como se aquela pessoa, naquele lugar, houvesse sido o estopim para o ato, tantas vezes antevisto, tantas vezes desejado e tão temido...a frase martelava sua cabeça:”a gente sempre sabe quando algo está para morrer”. Ela sabia!

Escrito por Anne Damásio às 13h24
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Das impossibilidades de recuar...
O rosto dela tão perigosamente próximo ao meu, e todos os sentidos aguçados, uns suspiros entrecortados e vislumbro o verde daqueles olhos, como se delizasse levemente pelas órbitas. A minha mão toca com medo no que há nela que eu queria meu, como se fosse quebrar, naquela parte das costas onde duas covinhas se instauram, e o prenúncio do que pode vir a ser arrepia suas costas e me faz ansiar por algo que está claramente além de nós...subo devagar meus dedos pelo pescoço, bem de leve como se para não assustá-la, até chegar a um ponto dos cabelos de onde brotam fios suaves e de uma cor indizível. Como tudo que reveste esses momentos hedonisticamente vividos tenho aquele corpo tão próximo ao meu que temo segurá-lo com mais força e fazê-lo desaparecer, assim como surgiu. Desenho por horas a fio aquela boca, tão momentaneamente minha pela proximidade, que receio qualquer movimento em falso. Sinto um medo aterrador que vislumbro nos momentos em que ela se esquiva de mim e volta rápido e me abraça, como se a dizer sem palavras que está perto e ficamos assim unidas no mesmo abraço, ansiosas por um depois que tememos, na mesma espera sempre desfeita nas manhãs de partidas e gestos rápidos, para que tudo, inclusive para nós, permaneça no reino diáfano do insuspeitado

Fotografia: Patrício Suarez
Escrito por Anne Damásio às 13h13
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De como vivenciar o improvável....
Havia aquela bruma rosa, como tecido sobre pele...havia a tensão quase palpável frente a um eminente contato tantas vezes desejado...havia ainda um medo insano de profaná-la, como se ao tocá-la, a realidade anteriormente intangível, materializando-se, a lançasse finalmente no abismo tantas vezes prenunciado...O retorno à antiga vida constituía-se de flashs entrecortados, como marcas indeléveis, o deslizar de dedos sobre a pele, um coração aos pulos, impressões tegumentares, uma cor indecifrável num olhar que esconde mais do que revela, um pânico de que os restos do cheiro daquele corpo se esvanecessem, mas sobretudo a insuportável idéia de que aquele momento desfizesse o mistério e assim a aura criada por ela para seduzir o que num primeiro momento se erigia como mera “ilusão de ótica impalpável se esgotasse num ato hedonisticamente vivido...Interrogava-se em susto acerca daquele ar de impenetrabilidade tantas vezes demonstrado, pensando estranha e repetidamente acerca do que restará da noite para àquela que de leve foi entrando e ocupando espaços recônditos...Então num ato de racionalizar o absurdo que era viver, passou a reter pequenos fragmentos do insuspeitado, como abrir os olhos e vê-la sorrindo, desenhar interminavelmente aquela boca, mas acima de tudo nunca, nunca esquecer o gosto!
Escrito por Anne Damásio às 16h28
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de uma partida...
Lúgubre? Perguntariam alguns...
Outros com dedos em riste clamariam pelo egoísmo, pela falta de delicadeza e condescendência para com os outros, e creiam ela concordará, mesmo sem articulações verbais, mais condescendências para com quem? Para os que a amaram de verdade ela desejou, desejava, desejaria toda a sorte e toda a insanidade para suportar a vileza humana...para aqueles que não a entenderam também desejava coisas boas e bobas, nunca a tortura dos que sentiram na pele a rejeição...
Outros perguntariam, porque tantas reticências no texto, e ela cabisbaixa afirmaria, porque não houve tempo para providenciar algo com uma coerência gramatical a altura das almas cultas...e despedindo-se sopraria um beijo no ar, com um cheiro adocicado de cervejas e cafés...

Escrito por Anne Damásio às 16h47
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Do que poderia ser...
Talvez prenunciando a sua morte, pediu com aquele ar maroto adquirido ultimamente como que para comover os que com ela conviviam.
- Nada, repito nada de flores, só se vocês conseguirem daquelas flores roxas, com uma tonalidade que de tão densa se faz abissal, como essa queda ao infinito que premeditei, não para fazer doer os que amo, mas por pura incapacidade de ser eu, assim, sem residência fixa, sem emprego consistente, com uns poucos amigos que ao me procurar desAguam rios de angústia, mágoas e sonoridades tão-e-sempre-maior-que-as-dores-alheias...E desbocadamente sorriu comentando entre-dentes, mas ora vejam, não li tudo o que gostaria de ter lido, não escrevi sequer uma obra digna de ser publicada postumamente, no entanto, reafirmo (c-o-n-s-c-i-e-n-t-e-m-e-n-t-e) tenho que partir...
Mas havia sua companheira, ah, aquela mulher que de tanto lembrar dela esquecia de si, aquela que quando bem perto a fazia existir de um jeito incrível e ingenuamente completo...Havia sua filha, forte e dada a rompantes, como esses que as adolescentes trazem no peito, arroubos para uma dor soturna que fica a nos rondar, os que passam por ela incólumes, são os capazes, seguramente capazes de matar a mãe e comer o presidente...Essas duas figuras ela não queria magoar, essas duas figuras era queria poupar de todas as dores do mundo...E haviam os outros tantos, aqueles que a amavam sem julgamentos, a todos eles citaria em cartas, deixadas embaixo da caixa vermelha, mesmo que a vida toda temesse as mulheres de vermelho...Mas a pergunta que rondava sua cabeça para além das promessas era tão pueril...Como continuar quando tudo me chama para outro lugar?

Escrito por Anne Damásio às 14h56
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(ego)centrismos...
Quantas vezes eu te neguei ajuda, por não saber dizer não, por querer te ver bem...Quantas vezes eu tentei te contar algo que me angustiava e me jogava nesse vazio em volta de mim, e você cortando o raciocínio me falou das tuas dores, tão e sempre maiores que as minhas, como se a disputar sofrimentos...
Essa falou espantou sobremaneira as moças, que costumeiramente a procuravam, convincentemente edificadas por sobre pernas enormes, nunca parando para observar o sofrimento alheio, as moças então recuaram bruscamente na frente da senhora que sorvia calmamente goles de um café amargo, não porque gostasse, e sim para impor um certo ar aristocrático naquela vidinha banalizada, na sucessão sem fim de dias que ela teimosamente arrastava atrás de si...Quando resolveu falar da mediocridade que era tudo aquilo temeu, e temendo tremeu, porque o não dito podia ser ocultado, sendo verbalizado, nunca mais voltaria para o mais recôndito de si...

Escrito por Anne Damásio às 13h17
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arfando...
Aquela cadeira ao fundo da sala, um dos braços caídos ao lado do corpo inerte, apenas um leve arfar do tecido nessa pequena parte ao redor dos seios, algo meio volátil, e a cena toda retida na memória....O odor fétido que emanava do corpo ao lado não era nauseabundo, talvez a existência sesciente do sujeito mobilizasse narinas e a fizesse verter algo que enunciasse o nojo, mas a sua permanência ali, como que mumificado fazia com que ela apenas respirasse, não processualmente, sem absorver cheiros, distender jeitos...

Título: hopeless
Autor desconhecido
Escrito por Anne Damásio às 12h07
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de uma possível queda...
O susto na boca do estômago, como pancada...queres vir? Mas de tanto que te anseio me perco no desejo de ti e todas as sensações pressentidas, (pré)negadas, anunciam que é hora de estagnação, nunca de saltos no escuro...De todos os abismos que criei, esse talvez seja o que mais temi...

Escrito por Anne Damásio às 12h50
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A espreita de uma grande dor...
Soaria como um tapa no escuro, ou mesmo, diria ela depois entre-dentes, quase líquida sentada nos ladrilhos amarelos da cozinha de Lua, como uma carícia no vento, mão tocando o vazio...como essas coisas que não mudam o curso por serem marcadamente liquefeitas. Talvez o amigo que não a abraçara na partida estivesse certo, nós sempre sabemos quando as coisas estão para morrer partir ou quebrar, e então a pontada aguda no peito, o medo de ter perdido o jeito. Abraçou os joelhos como fazia quando criança, mesmo ciente que não lembrava da infância, apenas fantasiava, enfeitando, inventando histórias para contar a uns poucos seres que como ela escorregavam perigosamente de si, e temerosa, desajeitada nessas coisas de amor-falta-dor,balançava-se entupida/entorpecida, como se perdendo/pendesse/doesse/morresse.

Fotografia: Lina Cheynius
Escrito por Anne Damásio às 10h59
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Da banalidade cotidiana...
Sim, era ela, a menina de azul. Teve vontade de gritar que ela não mudara nada, pensou pausadamente, como se escrevesse e nesse minuto pudesse colocar uma vírgula para organizar o pensamento...ela, a menina de azul, agora uma mulher de preto, acharia estranho, talvez nem lembrasse dele, e naquela hora do dia em que as cores perdiam a tonalidade abissal e adquiriam um gosto meio cinza de nada, momento ambíguo entre um dia cansado e a noite sem promessas, ela viraria os olhos para ele e ergueria as sobrancelhas como costumava fazer, arqueando levemente o canto direito da boca quando queria afirmar sem palavras que o dito do momento era uma bobagem inimaginável. Ele, sujo do dia, cansado da vida, com aquele gosto de cafés entornados frios-e-amargos para apressar o momento da ambiguidade(quando tudo que mais queria era fugir dele, quando não queria efetivamente voltar para casa, mas permanecer assim no vácuo de si) repetiria que ela era a menina de azul...essa palavras assim, ditas intempestivamente, sem motivo aparente soariam insanas no meio daquele barulho, homens gritando, “e aê vai levar freguês, último lançamento genérico, um real”, esbarrôes, espera angustiada por ônibus lotados que o conduziriam para sua casa. Fechou os olhos, sentiu as mãos encardidas dos canos metálicos dos ônibus, quis gritar também, como se pudesse sobrepor seus gritos com sua angústia de antigo pequeno burguês que largara a faculdade de letras no último período, mas engoliu em seco, como fazia com a vida. Quando olhou novamente, ponderado, ela estava ali, impassível, uma mulher de preto, sem aparentes esperas, como se flutuando por sobre aquela horda de humanos atabalhoados, cruzaram os olhos por um segundo, o que não queria dizer que se avistaram, ele esboçou um movimento qualquer que poderia sugerir reconhecimento, ela fingiu, ou realmente ignorou por não reconhecê-lo...um sujeito comum, nem gordo nem magro, com uma leve barriga de cervejas tomadas na urgência do ato de não sentir, óculos discretos comprados numa liquidação, roupas cinzas como se propositadamente não quisesse ser notado, não ousando imprimir no corpo marcas do antigo estilo, meio intelectual, sandálias de couro, jeans surrados e camisetas brancas...pensamentos suspensos, imagens de seu antigo eu a sua volta, como se a rir do que ele não se tornara. Então o ônibus dela, uma moça acena de dentro do ônibus, ela entra, quase aristocrática no meio daquela ralé e se vai, novamente ele deixa de dizer que para sempre ela seria a menina de azul, mesmo que ousasse usar preto, mesmo que não o reconhecesse...ela se vai!
Escrito por Anne Damásio às 12h33
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